Parte 2
Parte 2
O Sorriso que Desarmou o Jogo.(Ad.Est.Heway)
O Sorriso que Desarmou o Jogo.
Eu usava a provocação como ferramenta.
Era o que eu tinha.
Testava os limites dos outros para ver o que sobrava neles.
Mas com ela foi diferente.
Tentei o desafio e busquei a reação.
Não encontrei resistência, encontrei justiça.
Uma retidão que não precisava de voz alta.
Ela não recuou.
Ela permaneceu.
Então ela sorriu.
Não era o sorriso de quem vence uma briga.
Era o sorriso de quem está em paz consigo mesma.
Ela transformava o caos em ordem.
No território dela, ninguém usava máscaras.
Eu a chamava de Acônito.
Era uma flor azul e era um veneno.
Eu era um provocador caçando sorrisos, agindo como um lobo, mas sentindo-me como uma ovelha
.— Olá, Dejota — ela disse.
Ouvir meu nome me deixava em alerta.
Eu me perguntava o que tinha feito de errado.
Mas a voz dela era profunda como um rio.
Ela não via apenas os fatos;
ela entendia a lógica por trás deles.
Ela tinha o corpo de uma atleta e o olhar de quem sabe exatamente onde pisa.
— A curiosidade vai matar o gato, DJ — pensou Rafaela.
Eu entrei buscando um jogo, mas encontrei uma bússola.
Ela não precisava de escudos.
O sorriso dela era o desarmamento.
O que era para ser um desafio tornou-se o chão onde eu finalmente podia caminhar.
O Sorriso e o Acônito
O dia estava quente.
Era o feriado de maio de 2026 e o ar parecia parado, como acontece antes de uma tempestade que nunca chega.
Eu observava a mulher.
Ela tinha a pele escura e o corpo era firme, moldado pelo trabalho duro e pelo movimento.
Ela usava óculos e os óculos davam a ela um ar de quem lê muito e julga pouco.
Eu a chamava de Acônito.
Eu tinha lido sobre a planta.
Era uma flor azul, bonita de se ver, mas que carregava a morte nas raízes.
O Google dizia que servia para curar ou para matar.
Dependia da dose.
Dependia da mão de quem a colhia.
— Olá, De jota — ela disse.
A voz dela veio sem esforço.
Quando ela falava meu nome, eu sentia o peso das minhas falhas.
Eu endireitava as costas.
Eu me perguntava se deveria pedir desculpas por algo que ainda não tinha feito.
Eu agia como um lobo, mas os lobos não sentem esse tipo de medo.
Eu era um provocador.
Eu caçava sorrisos verdadeiros como quem caça presas em um campo aberto.
— A curiosidade vai matar o gato, DJ —
alguém disse, ou talvez fosse apenas o pensamento de Rafaela ecoando no ambiente.
Eu a observei caminhar.
Ela tinha o ritmo de um rio profundo.
Não havia desperdício de movimento.
Ela era médica e era personal trainer; ela conhecia o corpo por dentro e por fora.
Ela era a "Mata Leão".
Quando ela entrava em uma sala, o barulho das outras pessoas parecia diminuir.
Era uma energia de pouso.
Como um barco que finalmente encontra o cais depois de muito tempo em mar alto.
Eu tentei testar os limites dela.
Tentei a provocação, o jogo de palavras, o desafio do ego.
Mas ela não reagiu com raiva.
Ela não usava escudos porque não tinha medo de ser atingida.
Então veio o sorriso.
Foi um sorriso limpo.
Não havia deboche nele.
Foi o tipo de sorriso que desarma um homem porque retira a necessidade de luta.
A provocação perdeu o sentido.
A verdade dela era maior que a minha dúvida.
Naquele momento, eu entendi as regras.
O mundo parecia estar no eixo certo.
Ela era o porto seguro e o mar estava finalmente calmo.
Bebi um pouco de água.
A água estava fria e sabia bem.
Eu ainda era um pária, mas, por um momento, o sorriso dela me fez sentir como um par.
O Ofício de Provocar
Eu era um provocador por ofício.
Não era um jogo para ganhar dinheiro, mas um jogo para ganhar a verdade.
O mundo era cheio de sorrisos de papel, sorrisos que as pessoas colocavam de manhã junto com a gravata e tiravam à noite antes de dormir.
Eu não tinha interesse nesses.
Eu buscava o sorriso que desarmava.
Aquele que nasce quando a guarda baixa e a máscara racha.
Para encontrar esse sorriso, era preciso cutucar.
Era preciso ser o lobo que ronda a cerca.
Eu entrava nos ambientes e mudava a temperatura do lugar.
Fazia perguntas que ninguém queria responder.
Olhava nos olhos por dois segundos a mais do que o educado.
As pessoas se sentiam desconfortáveis.
Elas se defendiam ou atacavam.
Mas, às vezes, alguém não fazia nada disso.
Alguém apenas sorria porque entendia o jogo e não tinha nada a esconder.
Esse era o prêmio.
Eu me chamava de lobo, mas os lobos caçam para comer.
Eu caçava para sentir que ainda havia algo sólido sob o barulho das conversas vazias.
Era uma dieta magra, mas me mantinha alerta.
Eu era um pária porque os párias veem o grupo de fora.
E de fora, você enxerga as fendas no muro.
Eu usava o ambiente como um laboratório.
Uma palavra dita na hora errada, um silêncio mantido por tempo demais.
A magia não era um truque de cartas; era o momento em que a pessoa deixava de ser o que o mundo esperava e passava a ser apenas ela mesma.
No final, eu não queria machucar ninguém.
Eu só queria ver o rosto de alguém que não estivesse mentindo.
O Sal da Terra
Eu sabia o valor do inesperado.
No mundo, as pessoas caminham em trilhos.
Elas dizem "bom dia" e "como vai" sem esperar resposta.
É um roteiro de papelão.
Eu gostava de rasgar o roteiro.
Eu entrava na conversa por um lado que ninguém vigiava.
Dizia algo que não tinha relação com o assunto, algo que vinha do nada.
As pessoas paravam.
O cérebro delas travava como um motor sem óleo.
Era o silêncio do espanto.
— Você é distinta — eu disse a ela.
Era uma palavra pesada.
Uma palavra de outro tempo.
No meio da conversa comum, "distinto" soava como um tiro.
Ela ficou em silêncio.
O silêncio durou o tempo de um cigarro queimar.
Eu vi o "bug" acontecer nos olhos dela.
Ela estava tentando processar a informação, tentando encontrar a armadilha.
Mas não havia armadilha.
Havia apenas a verdade nua, entregue de um jeito que ela não podia ignorar
.Então, a máscara dela caiu.
Não caiu com barulho, mas com um sorriso.
Um sorriso de verdade, que começa nos olhos e termina no rosto inteiro.
Eu tinha hackeado a atenção dela.
Tinha usado a esquisitice como um gancho e o elogio como a rede.
Existem dois tipos de pessoas quando eu faço isso.
Há os que se sentem ameaçados; esses se fecham como ostras e me olham com julgamento.
E há os que se permitem o alívio.
Esses sorriem porque eu os tirei da caixa por um segundo.
Eu era o agitador.
O caos controlado.
Eu não queria ser compreendido por todos.
Eu queria apenas ver quem era capaz de aguentar o tranco da autenticidade.
Quem é de mentira, se assusta.
Quem é de verdade, agradece.
Bebi o resto do café.
Estava frio, mas eu não me importei.
A mensagem tinha sido entregue.
O Peso da Palavra
Estávamos no pátio.
O sol batia no cimento e o calor subia em ondas.
Ela estava lá, com aquela postura de quem comanda o próprio corpo e o espaço ao redor.
Eu a observei por um tempo.
Ela não era como as outras; havia uma clareza nela que me incomodava.
Aproximei-me o suficiente para que ela sentisse minha presença, mas não tanto a ponto de invadir o seu território.
Eu era o lobo testando o vento.
— Sabe — eu disse, quebrando o silêncio sem aviso
— você é uma mulher distinta.
A palavra ficou suspensa no ar quente.
Ela parou o que estava fazendo.
Não houve o "obrigada" automático, nem o riso nervoso das pessoas que não sabem lidar com a verdade.
Ela apenas me olhou.
O silêncio esticou-se.
Era um silêncio de reconhecimento.
Eu tinha lançado o anzol e a água estava parada.
— Distinta?
— ela repetiu.
A voz dela era calma.
Não era uma pergunta, era um teste.
— Sim.
No meio de tanta gente igual, você parece ter sido desenhada com traços mais fortes.
É um elogio de quem está em catarse, se você preferir.
Eu esperava o espanto.
Esperava que ela me achasse louco ou que se fechasse na defensiva.
Mas ela fez algo que os outros não faziam.
Ela inclinou a cabeça, processando o "bug" que eu tinha plantado, e então o sorriso apareceu.
Não foi um sorriso para me agradar.
Foi o sorriso de quem desarma o jogo porque já conhece as regras.
Naquele momento, a minha provocação perdeu o peso.
Eu tinha tentado hackear a atenção dela, mas foi ela quem, com um gesto simples, me ancorou no chão.
— Você é um homem estranho, Dejota
— ela disse.
E o jeito que ela disse meu nome não soou como uma acusação.
Soou como um fato.
Eu não respondi.
Não havia mais nada a dizer.
O mundo estava no eixo certo e, por um instante, o lobo não precisava mais caçar.
O Batismo do Lobo
O escritório era um lugar de vozes baixas e pessoas que fingiam não ter arestas.
Eu pesava cem quilos.
Tinha perdido vinte, mas ainda carregava o peso de quem já fora dono do próprio tempo e de treze homens.
Eu tinha cinquenta anos e uma voz rouca que não sabia pedir licença.
A Senhora da alegria era a autoridade.
Ela era médica e era treinadora. Ela caminhava pelo setor com a precisão de quem corta o que não serve mais.
Um dia, eu a vi agir.
Ela tirou uma colega de um posto e disse que ela iria para algo melhor.
A colega sorriu, acreditando na cura.
No dia seguinte, a colega estava na rua.
A Senhora da alegria tinha usado o Acônito.
A flor que é remédio até que se torne veneno.
Ela deu a anestesia antes de usar o bisturi.
Eu a observei e ela sentiu meu olhar.
Eu não abaixei a cabeça como os garotos de vinte anos faziam.
— De você
— eu disse a ela, sem sorrir
— eu tenho medo.
Você é a Mata-Lobos.
O silêncio que se seguiu foi frio.
Ela não era acostumada a ser decifrada.
— Me poupe, De Jota
— ela respondeu.
A voz dela era seca.
Ela virou as costas e saiu.
Vinte dias se passaram.
O medo que eu confessei não era fraqueza; era um reconhecimento de forças.
Agora, todas as manhãs, o jogo mudou.
Quando entro no setor, ela interrompe o que está fazendo.
Ela não diz apenas "bom dia".
— Bom dia, De Jota
— ela anuncia.
Ela diz meu nome em voz alta para que todos ouçam.
É um batismo.
Ela está marcando o território.
Ao me anunciar, ela avisa as outras mulheres que o lobo está no recinto, mas que ele pertence ao radar dela.
Eu me aproximo e recito seus títulos como quem confere o fio de uma espada:
A Senhora da alegria Personal trainer. Médica. E Mata-Lobos.
Ela sorri.
É um sorriso de cumplicidade entre dois sobreviventes.
Os outros colegas olham e não entendem.
Eles buscam a harmonia; nós buscamos a clareza.
Eu sei que todo dia no regime CLT pode ser o último, mas enquanto estou lá, não sou uma engrenagem.
Sou um par.
Ela me pergunta como pode ajudar.
Eu sei que ela já ajudou.
Ela me tirou do anonimato dos párias e me deu um nome no seu reino de ferro.
Epílogo
O expediente terminava e eu caminhava em direção à porta de vidro.
Atrás de mim, o escritório permanecia gelado e silencioso.
Os jovens de agasalho continuavam curvados sobre os teclados.
Eles pareciam plantas de estufa, frágeis e protegidas demais.
Um deles, uma garota que usava o capuz do moletom mesmo em ambientes fechados, me parou perto da saída.
— Você fala com ela de um jeito estranho, De Jota
— disse a garota.
Ela não me olhava nos olhos.
— Parece que você está sempre dando ordens. Aqui a gente preza pela harmonia.
Eu parei.
Senti o frio do ar-condicionado batendo na minha nuca pela última vez.
Minha voz saiu mais rouca que o normal.
— Harmonia é o que se diz quando se tem medo da verdade, garota.
Eu não dou ordens.
Eu falo o que vejo.
Se isso te assusta, o problema não é a minha voz.
É o seu ouvido.
A garota se encolheu dentro do moletom.
Ela não tinha uma resposta porque não tinha uma história.
Abri a porta e o golpe veio rápido.
O calor de trinta graus me atingiu no peito como um animal pesado.
O ar parado da rua era denso e cheirava a asfalto quente.
Eu respirei fundo.
Meus pulmões, acostumados ao ar filtrado e morto do escritório, arderam com a vida real.
Comecei a caminhar.
A cada passo, o suor brotava na pele, mas era um suor bom.
Era o calor de quem está vivo e fora da caixa de gelo.
Lembrei do sorriso da Senhora da alegria e do modo como ela anunciou meu nome.
Lá dentro, éramos o Lobo e a Mata-Lobos, senhores de um reino frio e artificial.
Aqui fora, sob o sol que não perdoa ninguém, eu era apenas um homem de cinquenta anos caminhando para casa.
O contraste era bom.
O calor me lembrava que eu ainda tinha sangue nas veias, e o gelo que deixei para trás me lembrava que eu ainda tinha um jogo para vencer amanhã.
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